Laços. "Há um vilarejo ali, onde areja um vento bom". Penso em abrir com minha irmã, um dia, uma pousada em algum lugar pertinho, quartos claros, janelas azuis, prato-feito. Honestina. Talvez eu vá para um lugar assim quando tiver 70 anos. Não falta muito. Adoraria. A questão é que dia desses tive um sonho premonitório. Estava confortável numa poltrona de avião, voltando para minha casa que ficava na Itália. Voltava antes pois queria um tempo para visitar meus amigos em Nice. Talvez aconteça, quem sabe, por enquanto, não tenho nenhum amigo em Nice e até onde minha vista alcança, não moraria na Italia jamais, enfim, já tive outros sonhos premonitórios, um deles foi que eu morava aqui, onde estou agora, nesse aparente dolce far niente, mas a verdade é que eu 'tou gestando. Deve ser o caminho..Minha vida , não se pode dizer que seja cheia de surpresas, mas nunca se pode dizer que seja monótona. Mês passado fiquei sabendo que uma parte da minha família, dos Rossigneux, vive nas imediações de Lyon, são merchant du vin, segundo minha prima que esteve com eles. Prima essa que conheci agora, aos 50 anos, que me achou no Orkut, nada comparado a sensação de descobrir que tinha duas irmãs aos 21 anos mas foi igualmente surreal; essa mulher sem que eu imaginasse nunquinha nossa relação de parentesco, é pessoa que admiro muito e sempre acompanhei a carreira, tá? Vida, se tentar entender perde a delícia.
Sobre o óbvio. Não desejo fazer parte de nenhuma sociedade, nenhuma agremiação, turma, confraria, clube, grupo. Não necessito de aceitação ou aprovação mas de reconhecimento. Tenho amigos esparsos, a maior parte deles circunstanciais. Me causa estranheza e uma certa repugnância mais do que dois adultos conversando entre si. Meus encontros precisam ser calmos. Com cada pessoa que falo meu contato é profundo. Tento evitar esse contato mas é inevitável: em cada um de nós vive aquele mal intransponível, a alma pequena e ver quase que sempre isso, dói. Não desejo criar raízes e nem desejo mais encontros que me tragam aprendizados, vivências, resgates, etc. Depois de um certo tempo, pessoas vão embora, não por vontade. Elas cumprem um papel na minha vida, eu na delas, umas permanecem por mais tempo, outras menos, assim é. Então, tenho especial predileção pelo sentimento de desapego. Apesar disso, sou capaz de entregar minha vida para causa ou pessoa. Sempre esqueço de mim, poucas pessoas entendem disso, pouquissimas vezes obtive respostas, aprendi que apesar de estar em contato com toda a humanidade, minha familia na Terra é bem pequena.
Tenho um lugar garantido no silêncio mesmo diante do pavor e da maldade e me
considero uma das pessoas mais felizes que conheço. As vezes é melhor seguirmos o coração, as vezes é melhor não colocar o coração na mesa, as vezes é melhor ouvirmos aquela musica e só.
Vi você ontem na rua, nem sabia que vc estava no Brasil. A suprema coincidência é que hoje estava buscando nos arquivos do blog, as fotos pra mandar pro Ffffound e encontrei seus traços por aqui. Não existem palavras para expressar a minha gratidão por ter sentido um amor assim.
Cá estamos, finalmente. Chegamos com a madrugada e mal pudemos esperar para ouvir a areia fluida cantando sob nossos pés. Buscamos tantas vezes distância das alegrias bizarras sem sucesso! Na bagagem odores delicados, nossos vinhos prediletos, queijos, pães, frutas, jornais, Paul Auster, Silvina Ocampo, e os meus judiados poemas de Prévert. Com os solavancos da estrada os melõezinhos expuseram suas polpas sem pudor: o mesmo laranja róseo do amanhecer que nos recebe sem ruído. Levemente perturbados aspiramos o perfume insular, o mesmo que veio nos indicando o caminho. Nas curvas usávamos a primeira pessoa do plural, como já juramos nunca. Soa singular. Pelo estilo do vento, o dia será magnífico."
Please, please, please.. posted by Angela Scott Bueno at 11:01
Quinta-feira, Março 06, 2008
"Ainda não te contei, mas foi aniversário da Ângela na segunda. Aí juntei os vizinhos e fizemos um bolo no sábado. Bem, a Luana fez o bolo, eu fiz a cobertura. A Oderica colocou tarot pra Ângela: presente."
De resto, é conversa entre mulher e marido não leiam :)
Teve uma coisa que aconteceu hoje de manhã comigo, quando eu acordei com 50 anos, que foi como se eu estivesse nascendo novamente. Foi assim pra você também?
Olha que bacana, mande postal pra todo mundo. Postal de verdade, de mandar pelo correio. Já mandei 4. Um pra China, um pra Finlandia, um pra Nova Zelandia e um pro Brasil. Esperando ansiosa pra receber o primeiro. Super legal.
Pediram um trabalho pro Egberto Gismonti; ele foi lá, em cinco minutos resolveu o lance e cobrou tantos dinheiros, então o cliente disse, mas rapaz, tudo isso por cinco minutos de trabalho!? E ele respondeu: 5 minutos não, 40 anos. Adoro essa história :)
Cansei, não estou mais gostando de estar de férias enquanto todos trabalham, mas não quero procurar trabalho, quero que ele me ache, pode ser aí, Universo? Nada que requeira "prática nem tampouco habilidade". Que seja de meio-expediente e que me pague um milhão por mês. Pode ser em alegrias, tudo bem.
Eu gosto profundamente de aeroportos. Gosto muito de observar gente nos aeroportos - e de ficar sentado a espera de aviões. Gosto de horários de aeroporto. Daquele ruído de fundo, do voltear, de gente que parte e chega, de gente que pernoita nos aeroportos aguardando o primeiro voo da manhã. Gosto de gente que lê livros, sentada em cadeiras desconfortáveis ou apenas cadeiras de aeroporto - livros irreais, histórias fáceis, romancistas de segunda e terceira categoria. Gosto de gente que perde voos e que fica sentada esperando o próximo. Gosto da Music for Airports, de Brian Eno. Gosto de iPod nos aeroportos. Gosto de tabacarias onde se vendem jornais em línguas desconhecidas e de cidades sem geografia. Gosto de áreas de fumadores em aeroportos longínquos, de restaurantes banais, desproporcionados, sem decoração. Gosto daquela simpatia rara do check-in em companhias aéreas do Oriente. Gosto do som de cidades murmuradas nos altifalantes, como Denpasar, Darwin, Colombo, Guatemala, Anchorage, São Paulo, Helsínquia, Montevideu, Porto Alegre.
Os aeroportos atraem-me profundamente: gosto de escalas de três horas em aeroportos distantes do destine final. Gosto de livrarias e de cervejarias de aeroporto.Gosto da área de fumadores do aeroporto de Singapura, um jardim com piscina, rodeado de restaurantes, plantas exóticas, ventania que vem das pistas, o ar tépido e húmido, arrastado - e dos que esperam ali antes de embarcar para outro lugar desconhecido. Gosto das sanduíches de salmão com creme de queijo no Harrods do aeroporto de Lisboa. Gosto das livrarias LaSelva dos aeroportos brasileiros. Gosto da desordem selvagem de Madrid, em plena madrugada, quando chegam os voos da América Latina. Também gosto da madrugada do aeroporto de Amsterdão, ao chegarem os voos do Oriente. Gosto dos restaurantes, do de Frankfurt e das lojas de compotas e conservas de Heathrow. Gosto da simplicidade comovente e fria do de Keflavík, na Islândia. Gosto da sensação absoluta do fim do mundo anunciado em Gandem, na Terra Nova canadiana - e dos pântanos que se vêem do ar, em pleno crepúsculo.
Já passei noites em aeroportos vazios, como na Cidade da Guatemala. Já adormeci em aeroportos cheios de gente, embalado pela passagem de gente perdida ou apenas procurando um voo, um destino, uma cidade de painel electrónico, um mapa turístico de tabacaria, um jornal de há três dias.
E há essas coisas que se levam de aeroportos: revistas, roupa amarrotada, o cheiro de uma viagem por fazer, uma sanduíche que é igual em todo o lado, as promessas de amor contrariado, as juras de amor eterno, os últimos beijos, o primeiro beijo, o derradeiro abraço, lagrimas, um riso aberto, retratos de cidades invisíveis e que nunca existiram.
E a claridade tranquila do aeroporto do Funchal. O ruído de altitude quando se chega à Cidade do México. O jazz inaudível quando se atravessa a porta das chegadas em Nova Iorque, sobretudo em JFK. As melodias. A musica que é igual em todo o lado, os hits que se vendem nas lojas de discos, os centros de Internet onde todos navegam no Yahoo ou no Hotmail, as filas intermináveis do aeroporto de Jacarta. As escalas em Miami. O chão de pedra do de Estocolmo. A musica dos Madredeus na chegada ao Ben Gurion, de Telavive. Os pavilhões de madeira e tule em Belize City, depois de uma tempestade nos recifes. O aeroporto de Ushuaia, na Terra do Fogo, diante da Antárctida, com flocos de neve caindo sobre o canal Beagle - o que nos transporta para a imagem de Darwin à proa do seu navio. O de Oaxaca, no México, e a Canción Mixteca ouvida numa loja de mezcal, tocada por uma orquestra de marimbas. Os atrasos nos aeroportos de Cabo Verde. O ar sufocante na chegada a Moçambique, irrespirável. A tepidez desconfortável e os ruídos de baratas e de grilos em Bissau, na Guiné. O cheiro de fritos e o fumo dos autocarros diante do aeroporto de Abidjan, na Costa do Marfim. Um voo que parte numa madrugada de Outono austral, em Buenos Aires. O casal que fica sentado entre passageiros felizes enquanto se aproxima a hora de o avião de um deles partir para sempre. O rosto e o corpo de uma mulher vistos através do vidro de uma zona de partidas, aquele ponto de não-retomo, Os discman, o walkman. O Herald Tribune de fim-de-semana. As escovas de dentes descartáveis. As coisas que amamos de um aeroporto, um rosto visto através do vidro, as despedidas breves."
Veja bem, me deu uma saudade daqueles caramelos do D'Angelo de Petrópolis. Será que ainda existem? Isso não é nada, pior é sair procurando pelo Rio de Janeiro, alguém que faça um biquíni de crochet, - no meu caso agora, um super maiô. Isso é uma situação na vida da pessoa: quando a gente começa a querer as coisas que viveu nos anos 70. Vou fazer 50 anos esse ano, já devo estar fazendo o caminho de volta, hein? Se, qualquer dia desses você me encontrar na rua de bata indiana, aja naturalmente, por favor.
Telegrama. 31. Depois de assistir a São Silvestre, vou para a praia, fico em Ipanema até amanha. Natal foi bacana, primeirão na nova casa, um luxo. 2008, dizem, será regido por Marte mas, na real, pra essas coisas, o ano só começa em março. Mas, olha, tenha consideração, delicadeza, diga boas palavras, se for brigar, que seja confronto aberto e digno, não seja maldoso num ano Marte, o que se perde num ano Marte é definitivo. 2008 é um ano 1. Mande ver nos novos começos, quem encarar, leva, é o ano de se ter coragem, segundo minhas fontes :)
No mais, música para dar o tom do clima que está fazendo nesse meu Rio de Janeiro. Stay cool and stay wonderful, pessoal :)
Segunda-feira. 13:35. Listas, listas e listas. Final de ano cheio principalmente de coisas que não fazia há muito, muito tempo, porque há muito muito tempo nós não tinhamos uma casa só nossa. Semana que vem, pintamos o apartamento. Um dos privillégios da vida, que a gente só vê quando está sem dinheiro, são as ações entre amigos, sabe né? Qual a graça em contratar uma equipe de reforma e um decorador? Não. Isso é muito sem alma. Nada como um dia festivo com aquele monte de amigos dentro de casa, pintando suas paredes enquanto você faz uma comida no fogão. É praticamente levantar u'a laje, só que, no caso, em vez de feijoada e cimento, é risoto e tinta Suvinil. N'é não? Tudo bem, eu 'tou sacaneando. Queria uma equipe aqui resolvendo tudo e me chamando em vídeo conferência enquanto eu me refrescava no Spa convidando todo mundo. Meus amigos também quereriam mas, você entende o sentido, não? E minha casa estará linda no Natal e no Ano Novo, e, por causa da reforma, vai ter festa e nós todos, partícipes de um novo começo de vida, vamos poder dizer, não pró-forma, mas sim, feliz, de verdade. Agora sério, o que é melhor do que isso? Agora sério, daonde eu tirei "partícipes"? Putz.